O adeus do estagiário

A coordenadora dos recursos humanos contratou o garoto com aparência de homem para o estágio de comunicação social. Ele ficaria responsável pela comunicação interna de duas unidades da grande empresa em que acabara de entrar. Ambas estavam em redução de custos e uma delas havia demitido, na semana anterior, mais de dez funcionários; alguns deles com mais de vinte anos de empresa.

No início não poderia ser diferente: a rejeição. O que um garoto queria, andando de roupinha social por uma fábrica repleta de funcionários amedrontados? Apenas trabalhar. E logo os colaboradores (como são apelidados pelo corporativismo) entenderam isso. Não faltou apoio, sorrisos e sinceridade.

Não havia nada a fazer que o estagiário não soubesse, no que se refere ao trabalho em si. Entretanto, apesar de sua carreira não ser tão curta (antes já havia trabalhado em uma grande empresa por dois anos), havia coisas a se descobrir. Entre elas, a difícil tarefa de conviver diretamente com alguém que além do cargo, sente-se superior ao outro. O ego de alguns foi a maior barreira que o estagiário encontrava em seu caminho. Não foi fácil estar em contato com tanta contradição... As ações nunca se pareciam com o discurso. Pura política.

Sempre que o garoto chegava na sala do gerente, jamais recebia a atenção necessária. No dia em que foi despedir-se, o “todo poderoso” virou, tirou os óculos e puxou conversa. Ao saber do que o estagiário fazia antes de entrar ali, ficou surpreso. Ouviu os planos do estagiário e, de maneira mecânica, desejou-lhe boa sorte. O garoto não tinha o que agradecer. Sentia-se apenas aliviado em não precisar mais ouvir tantas baboseiras... Depois de um ano do estágio, ele encontrou um novo caminho. De longe o gramado parece ser mais verde, porém o gosto é o mesmo. É o capitalismo verbalizado no patrão, que vê o ser humano como uma simples mão de obra para o seu lucro.