Nunca havia trabalhado tanto como aquele dia. Foi um sobe e desce de escadas pelos 11 andares dos dois prédios da empresa. No final do dia eu estava exausto, sem forças, mas ainda precisava caminhar até as barcas para ir embora. Diferentemente de todos os dias, resolvi ir andando devagar. Fui olhando os monumentos, as pessoas, os prédios históricos e tudo que parecia ser interessante.Com uns quinze minutos de caminhada, decidi parar em frente a uma pastelaria. Estava na fila do caixa quando um garoto, engraxate de rua, pediu-me algo. Sem ao menos escutar o que o menino queria, eu neguei seu pedido. Naquele momento, além de eu não querer dar gorjetas, não tinha um tostão quebrado. Iria fazer meu lanche com o famoso ticket-refeição. O garoto então seguiu a fila e eu, enfim, pude ouvir: “tia, paga um pastel pra mim?”.
Perguntei a ele: “Ah, você quer um pastel?”. Ele balançou a cabeça confirmando a minha pergunta. Eu então pedi duas promoções iguais (com dois pastéis e um caldo-de-cana) e deixei que ele fizesse seu pedido às atendentes. Percebi que havia um outro garoto do lado de fora e então instrui o menino a dividir o caldo e o pastel, mas ele já estava preparado a assim fazer. Segui meu rumo ainda exausto, mas com um sentimento um tanto quanto melhor, sentia-me útil.
Todos os dias eu opto pelas barcas mais novas, que são mais rápidas. Neste dia preferi as mais antigas, que levam quase o dobro do tempo para chegar. Adormeci durante a viagem e fui acordado por uma jovem que fazia este favor a outros cansados como eu. Ao chegar na frente da estação das barcas, ainda estava sonolento, mas percebi uma movimentação no local. Uma orquestra começara a se apresentar. Em um dia comum, passaria correndo pelo local, mas resolvi para e prestigiar aqueles talentosos jovens.
Estava viajando ao som dos instrumentos quando o telefone toca: estava atrasado a mais de uma hora na faculdade. Fui andando devagar e quando cheguei lá, a amiga que me ligou levou sete das quatorze edições da Revista Piauí. Como criança eu festejava o presente, já que meu orçamento não me permite comprar uma das revistas que mais gosto de ler. Cheguei em casa tomei banho, guardei minhas revistas e dormi. Foi o dia da minha vida que pensei em parar. Mas como era preciso continuar, diminui o ritmo da caminhada. Foi assim que vi quantas coisas lindas a vida me proporciona.