O dia que a rádio fechou

Era o último programa que ele apresentava antes das férias. Iria passar vinte dias com sua família em uma cidade praiana. Não estava muito satisfeito em ter que viajar, mas sua mãe, preocupada com o menino de dezessete anos que desde os quatorze não saía da rádio, obrigava-lhe a passar alguns dias fora. Os ouvintes ligavam querendo saber para onde o jovem locutor iria, se ele iria voltar, quem iria substituí-lo durante sua ausência, enfim, a relação que o público tinha com ele cabia tal intimidade.

Terminou o programa e o menino seguiu triste para casa. Sua mãe tentava convencê-lo de que as férias seriam boas para ele, que seria divertido. Mas para o garoto, não havia nada melhor que ficar lá. Para ele, abrir e fechar a rádio e apresentar quatro horas diárias de programa era um divertimento. Enquanto arrumava as malas, o jovem locutor ouvia a programação da rádio para ver se estava tudo bem. E para sua surpresa, os ouvintes participavam dos outros programas oferecendo música para ele e pedindo para ele voltar logo. Tentou então – sem sucesso – ficar em casa, mas sua mãe estava irredutível.

Ao sair de casa o garoto ligou seu radinho de pilha. Mas em menos de meia hora a freqüência da pequena rádio comunitária já não alcançava mais seu destino. Até a cidade em que ficaria hospedado o menino não falou uma só palavra. Nem o mar, que não via há tanto tempo, conseguia lhe animar. Os primos o chamavam para sair, conversar, mas o menino não conseguia deixar de pensar na rádio. Então resolveu que ligaria todos os dias no horário em que seu programa começava. E assim foi durante os vinte dias que ficou fora. Foi a maneira mais equilibrada que ele encontrou para aproveitar suas férias sem se preocupar tanto.

Ao retornar, o menino tinha novas idéias para seu programa. As rádios da cidade praiana também tinham uma boa programação, o que havia lhe inspirado bastante. Chegou em casa, saiu do carro e foi correndo para a rádio, que ficava ao lado. Estranhou que o portão estava trancado, voltou para casa e subiu no muro (lugar onde ele estava quando foi convidado a trabalhar lá). Vendo que a rádio estava fechada, sintonizou seu rádio e os chiados mostravam que alguma coisa havia de errado. Ligou para o dono da rádio que lhe informou: “Nos pegaram, a rádio fechou cara”. O menino desligou o telefone e foi chorar até adormecer. Sonhou então que estava no ar, que o telefone não parava de tocar...

Acordou, voltou ao muro e viu que o seu sonho havia realmente acabado. Daquele dia em diante o menino desceu do muro, passou a trabalhar para pagar seus estudos e então se tornar um jornalista, desta vez com maior competência para atuar. A paixão que motivava o menino é a mesma que motiva o - agora - homem de ser completamente apaixonado pelo que pretende fazer.