Sol, praia e violência

Sexta-feira, final de expediente, e sol quente no Rio de Janeiro. O telefone toca e um amigo sugere, desesperadamente, uma das praias da Barra da Tijuca como programa para o final do dia. Eram quatro da tarde e o ônibus da linha 261 me levava da Zona Norte ao Centro. Meu amigo acabara de sair da Praça da Bandeira, onde é responsável pela segurança do local, e fora ao Quartel pegar o carro. Debaixo daquela farda ele teve – literalmente – um dia de batalha, enfrentando o sol da cidade maravilhosa. Daí o desespero ao me fazer o convite!

Durante o percurso passamos por lugares onde diariamente a violência é destaque nas páginas dos jornais. É estranha a sensação de passar por locais que servem como cartão-postal e ao mesmo tempo, como cenário do crime. Essa dualidade de sentidos e significados reflete a extrema controvérsia que o país vive. Palavras como guerra e paz agora caminham juntas, formando frases que parecem mais slogan publicitário: “Guerra pela paz”. Na era da propaganda, até a violência é promovida. As vítimas da violência são usados como personagens para filmes e séries, estampam camisas, viram livros, vendem jornal... Um problema tão sério e vira uma ótima oportunidade de negócio. São os sanguessugas que agem além da política, ficando espalhados pela sociedade como a metástase de um câncer.

Toda aquela beleza me levava a uma intensa reflexão da vida. Não do lado burocrático dessa caminhada... Nada de trabalho, contas e problemas. Pensei na infância, nos amigos e na família. Esse momento foi interrompido por dois rapazes que praticavam kitesurf. Enquanto os pára-quedas puxavam suas pranchas, eu media o grau de liberdade que eles sentiam. O perigo que havia naquela prática era bem menor do que aquele que estava na areia aonde eu estava sentado. No entanto, a violência que nos cerca só é visível quando a sofremos, ou quando é verbalizada nas atrocidades que vimos pelas ruas. Fora isso, tudo o que resta são pessoas, carros, monumentos e prédios. A impressão é que a violência se esconde junto aos delinqüentes. Ou quem sabe dentro de cada um que, se não armado, vive a espera (mercê) de um ataque. Seja ele de tiros ou de nervos.

O sol ainda não havia ido embora quando partimos: agora rumo ao nosso mundo real. Estávamos indo para a Linha Vermelha, onde no dia anterior a imprensa destacou um tiroteio entre policiais e traficantes. Estávamos felizes, fazendo piada, briancando; mas sempre fica aquele sentimento estranho de que alguma coisa pode acontecer. Mesmo sendo jovem, não dá para pensar que “comigo não vai acontecer”. Passamos a acreditar que é possível ser alcançado por essa triste e real violência. Muito mais que acreditar, passamos a temer que nossa vida possa ser interrompida por uma bala que é chamada de perdida, mas que sempre tem um destino certo: o inocente.

Apesar do medo, não havia como deixar de se sentir privilegiado por poder contemplar tamanha beleza. No meio do caminho comentei com meu amigo que eu estava com a sensação de que não havia trabalhado. Parecia um sábado... Estava relaxado! Mesmo que a incerteza dos quilômetros que ainda iriam ser percorridos estivesse presente, a vontade era fazer daquele entardecer um belo quadro, uma pintura para se colocar na parede e pensar: vale a pena correr o risco de viver!