Texto escrito em 12/04/2006
Ontem foi mais um dia daqueles, dos quais depois de muito trabalho e uma aula super chata, eu e alguns amigos fomos fazer um lanche perto da faculdade. Em meio a piadas e gargalhadas comecei a reparar nas outras mesas. O clima de uma delas me chamava a atenção: com mais ou menos sete pessoas, o pessoal estava bem animado com um simples pedacinho de papel.
Notei que uma caneta era repassada de mão em mão, após retirarem o tal pedacinho de papel de um fichário. Uma das meninas chama o garçom e lhe entrega o papel, apontando para um jovem que estava na mesa ao lado. Achei engraçado o ato corajoso da moça, pois antes dela mandar o bilhete, o rapaz (que estava de costas pra ela) nem havia percebido sua presença. Quando recebeu o recado, o rapaz ficou surpreso. Deu uma estufada no peito, dobrou o papel, deu um gole na cerveja, passou as mãos no cabelo, olhou para a mesa da menina e soltou um sorriso.
Passaram-se então uns quinze minutos até que o rapaz levantou para pagar sua conta. A menina abusava das “caras" e "bocas”, revirava os cabelos e fazia pose de aspirante à modelo. Retocou os lábios, se olhou no espelho do bar, arrumou a blusa e encostou-se em uma cadeira. Seus amigos riam da sua conduta e pareciam ansiosos para verem algo acontecer... Até que o rapaz - em uma atitude nada tímida - olhou para a moça e fez sinal com as mãos dizendo que gostaria de falar com ela. A menina (?) ainda perdeu uns dois minutos se fazendo de difícil (mesmo após demonstrar ser extremamente fácil), mas o rapaz insistia, pois sabia que tal atitude fazia parte de um script, puro charme.
Ao se encontrarem, se beijaram no melhor estilo hollywoodiano. Eles ainda teriam uns quinze minutos para se conhecerem melhor. Quem sabe, até saberiam o nome um do outro?! No meio do bar os dois protagonizaram uma cena digna de Nelson Rodrigues: mãos escorregando pelos corpos, pegadas nos braços, cheiro no pescoço e sussurro no ouvido. Ficaram ofegantes e risonhos, pareciam dois adolescentes apaixonados, fazendo “carinho” um no outro, de mãos dadas.
Como nasci na metade da década de oitenta, não posso comparar a realidade de hoje com a época em que uma moça era prometida a um rapaz e os mesmos só se beijavam após o casamento (sinceramente não acredito muito nessa história, mas tudo bem!). Não quero analisar a atração que os jovens sentiram um pelo outro. Mas, ressaltar a importância da comunicação eficaz. Afinal, o destaque da noite foi o pedacinho de papel. Mesmo no chão, levado pelo vento em meio aos carros e a poeira das ruas da metrópole, ele fez toda a diferença naquela noite. Sei que olhares e sorrisos colaboraram, mas o papel foi triunfal para que tudo acontecesse.
E assim terminou a noite: o garçom com ar de missão cumprida, o papel ao vento, os dois jovens - ao que tudo indica - foram para suas casas, e eu e meus amigos nos despedimos sorrindo e dizendo uns para os outros: “É mole, ou quer mais?!”.