Seis jovens americanos vêm passar férias no Brasil e são assaltados, drogados e vítimas de uma quadrilha de tráfico de órgãos. Essa é, basicamente, a história de “Turistas”, filme que estreou nos EUA no dia 01 de dezembro, e que por lá está sendo tratado com um filme “bobo, sem graça e para ser esquecido”, como citou a crítica americana. E essa fraca história rodada aqui no Brasil está causando polêmica. Desnecessário, tendo em vista que quem fica como o idiota do filme, são os jovens turistas sem grana e sem graça.
O longa é carregado de estereótipos e absurdos. Há um exagero nas situações retratadas em “Turistas”, porém são fatos que nós, brasileiros, vivemos (ou morremos) em nosso dia-a-dia. Em um pequeno “debate” entre amigos que me enviaram um e-mail propondo boicote à produção hollywoodiana, dei o exemplo do jornalista Tim Lopes, que foi seqüestrado, torturado, e mais do que os órgãos roubados, foi esquartejado e queimado. Um fato que chocou todo o país e que (não sei como) ainda não virou filme. Os problemas sociais no Brasil viram filmes, séries e entram até no roteiro das novelas. São poucos os que mostram um caminho ou apontam uma solução. A maioria deles apenas expõe a ferida do povo, caindo sempre na caricatura. Mal sabem os turistas que são eles, os mais privilegiados neste país: não são incomodados no aeroporto, têm dinheiro para gastar, desfrutam do bom e do melhor e ainda fazem o querem por aqui, como diz o trailer do filme: “Num país onde vale tudo, tudo pode acontecer”.
Apesar do Brasil parecer um paraíso para eles, turistas também são roubados, agredidos e mortos em nossa terra. Isso é notícia aqui e em todo o mundo. E quando essa realidade é retratada no cinema nacional, há quem bata palma. Geralmente, essas produções viram sucesso de bilheteria no Brasil e são indicadas a prêmios internacionais. Beira a hipocrisia esse pseudo-nacionalismo em boicotar um filme tão idiota como "Turistas". Seria uma obrigação das autoridades proibirem a veiculação do filme aqui, já que o país é tratado de maneira ofensiva pelo longa. O que parece mesmo é que a única interessada no boicote é a Embratur. Motivo? preocupação com o impacto negativo em seus negócios de turismo. Assim como a RioTur se indignou quando um episódio de “Os Simpsons” retratou o Rio como um Iraque (o que não chega a ser totalmente mentira). Podemos optar por não vê-lo, como também seria bom não ver o enlatado “Todo mundo em Pânico” e várias outras "mega-produções" de Hollywood. Há também produções americanas que depõem contra eles mesmos, como “Hannibal”, que falam sobre canibais americanos. Mas nem por isso classificamos todos os americanos como tais.
O filme não passa de um produto feito pela indústria do entretenimento, que ao invés de entreter, vem cada vez mais desviando a atenção e cegando a grande massa que a consome. O Brasil tem tanta coisa boa para mostrar... Até mesmo a linda cidade paulista de Ubatuba, onde foi rodado o filme. E há quem as mostre. Mas cabe a cada um de nós fazermos a nossa parte. Iniciativas, projetos sociais, belezas naturais e o próprio povo brasileiro são muito mais importantes do que “Turistas”. A maior revolta contra o filme acontece no Rio de Janeiro, cidade que elegeu Sérgio Cabral como governador e que serve como berço dessa violência. Devemos fazer boicote sim, mas aos nossos governantes, que pouco fazem para melhorar a cara desse país, que como dizia o eterno Cazuza: "Ver TV a cores na Taba de um índio, programada pra só dizer sim, sim... Brasil mostra a tua cara, quero ver quem paga pra gente ficar assim".