É carnaval. Pierrôs e colombinas nas ruas, confetes jogados para o alto, muita música e alegria. Os bate-bolas correm formando corredores enquanto os trios elétricos arrastam multidões. Fantasias e máscaras saem dos guarda-roupas e colorem as ruas do Rio de Janeiro. Considerado a maior festa do mundo, o carnaval acontece menos de dez dias depois da morte do menino João Hélio, que foi brutalmente assassinado no subúrbio do Rio, formando um enorme contraste entre o luto e a alegria. E essa dualidade de estado de espírito que as pessoas vivem acontece não só nesta época, como nos outros trezentos e sessenta e poucos dias do ano.
Mesmo não tendo visto, a imagem daquele garoto sendo arrastado por sete quilômetros ainda me faz calar por alguns instantes. Assisti algumas entrevistas concedidas pelos pais do menino. E assisti também as matérias sobre os preparativos do carnaval. Li no jornal sobre os bairros por onde os bandidos passaram com o corpo de João. E li também sobre os bairros que irão "agitar" com algumas atrações neste período. As roupas pretas (representando o luto) serão guardadas no armário. Chegou a vez do colorido, das fantasias repletas de purpurina e paetê.
Foi assim também no ano novo. Os corpos das vítimas do ônibus incendiado na Avenida Brasil ainda nem haviam sido liberados do Instituto Médico Legal (IML) e Copacabana ficou lotado. Pessoas que saíram de todas as partes do Brasil para admirarem os fogos e oferecerem flores para Iemanjá. O luto pela dor das barbáries dura tão pouco quanto a luta pelo fim da violência. Manifestações, passeatas, discursos... Tudo muito superficial. Parece que diante de tanta atrocidade, a população fica sem forças para gritar. A desculpa é sempre a mesma: a vida continua. Essa frase sempre me irritou demais. Ela é usada para justificar o esquecimento dos seres humanos.
E agora na época dos pandeiros, a população festeja algo que na verdade não existe. O carnaval serve como esconderijo das infelicidades, decepções e tristezas. É o período que ninguém se importa com quem usa máscaras. Ainda que debaixo delas lágrimas escorram, ninguém se importa. É a vez da cachaça, do porre e da vida louca. É o tempo do êxtase, do lança-perfume... O espírito de liberdade acompanha os foliões, que saem para as ruas com medo de terem suas casas saqueadas. É contraditório mas é verdade. Talvez depois da quarta-feira de cinzas alguém se lembre do João Hélio. Quem sabe alguém reflita sobre o que pode estar acontecendo com nossos jovens para levá-los a se tornarem seres que arrastam um ser humano como um simples judas pelas ruas. Mas nestes dias de folia não adianta falar de coisa séria. Infelizmente, a vida continua. Não sei se depois do carnaval continuará para todos, mas ainda assim, continua.