Lembro-me como se fosse hoje o primeiro dia em que, de fato, eu confiei em alguém na minha vida. Foi na adolescência, quando eu e alguns amigos resolvemos, sem nenhuma perícia no assunto, escalar uma pedreira. Não tínhamos aparelhos de proteção e segurança, calçados apropriados e, muito menos, juízo do que estávamos fazendo.
A cada centímetro de pedra que eu me apoiava o medo só aumentava. Mesmo com meus amigos me incentivando, o chão ficava cada vez mais longe e quando reparei, minhas pernas tremiam de uma maneira que em poucos segundos eu caíria. Mas um amigo, ou melhor, o único do grupo que eu não considerava amigo de verdade, andava como uma aranha na pedra. E foi ele quem colocou o ombro para que eu apoiasse meus pés. Foi difícil acreditar nele, achava que cairíamos juntos, os outros me mandava confiar, até que eu me apoiei nele e, com muito sacrifício, continuei a escalada.
Depois deste dia, passei a confiar plenamente nas pessoas. Até naqueles que por algum motivo, perderam a credibilidade. Aprendi a dar crédito para as pessoas, a dar oportunidade de elas mostrarem que poderiam ser diferente. Afinal, quantas vezes eu precisei dessa chance e não tive. Na verdade, muitas vezes neguei o perdão a mim mesmo.
No final da adolescência eu confiava em todos, menos em Deus. Foi quando conheci um sujeito chamado Gil. Um cara simples, vivido; extremamente sério, extremamente engraçado; extremo. Gil tinha uma história de vida que comovia a todos que o ouvia. Ele só conseguiu perdoar seu pai, depois que o mesmo havia morrido. Estranho, não? Mas foi assim que Gil libertou-se de tantos medos e traumas. Gil não se esqueceu das coisas que seu pai fazia. Ele apenas não sofria mais com aquilo.
O pai de Gil não precisava de perdão. Era Gil quem precisava esvaziar-se da mágoa por alguém que lhe fez tanto mal. Eu também precisava de perdão. Não somente de Deus ou de algumas pessoas, mas de mim mesmo. Gil mostrou-me que o ato de perdoar não é do ser humano, ela transgride barreiras, é proveniente dos altos, do lugar aonde eu há muito tempo não olhava. Precisei um dia confiar em alguém, para poder confiar em Gil. E foi confiando em Gil que eu passei a viver o perdão. E ainda hoje, quando hesito em guardar algo desnecessário dentro de mim, lembro daquele amigo chorando, dizendo que depois de tantos anos, sentia-se aliviado por não ter mais ódio em seu coração. É, ou não é, coisa de Deus?