O sinal de trânsito estava fechado. Na calçada, dois garotos pintados de palhaço, aparentemente cansados, debruçados um sobre o outro. Na avenida, carros parados, motoristas impacientes, buzinas e o ronco de motores. Os olhares estavam atentos para o sinal, que em pouco tempo liberou o trânsito. Os meninos-palhaços ficaram para trás. Não era a primeira e com certeza não seria a última vez que eles seriam ignorados por alguém. No vidro de um carro o adesivo estampava a frase: “Eu me amo”. Um simples retrato da indiferença, do egoísmo e do sentimento de auto-suficiência do ser humano, uma marca do altruísmo deixado de lado.
Na hora lembrei-me das nossas autoridades, dos políticos que fazem politicagem, mas que não fazem a diferença. Meu pensamento foi de Niterói para Brasília, direto para o “Picadeiro Real”, aonde se escondem os verdadeiros palhaços deste Brasil. Um país que faz papel de palhaço, que pinta a cara para derrubar, mas que não ajuda a levantar ninguém. As mãos não são mais estendidas para ajudar, apenas para pedir. Nega-se o pão, mas o telefone está sempre liberado para o voto do “paredão”. É a mesma sociedade que vira as costas para um protesto contra a violência, que se nega a participar de uma causa pela Amazônia e que insiste em votar em quem não quer trabalhar pela mudança do país.
São palhaços de todos os lados. No Congresso, nas ruas, becos, favelas, condomínios de luxo e em todos os setores da sociedade. Os profissionais do riso perderam espaço para os que transmitem a tristeza. Quem está sendo enganado? Quem manipula? Cadê os rostos dos corruptos estampados nos jornais? As cadeias estão transformando vidas? Há alguma saída? São questionamentos, perguntas sem respostas e repletas de projetos, respondidas através de falsos discursos. Atitudes não tomadas, deveres não cumpridos, direitos não respeitados... Tudo transformado em total palhaçada, puro descaso.
O sério virou piada. O importante virou o nada a ver. A prioridade agora é segundo plano. Ligou a câmera da tv? Está gravando? Promessas, promessas e promessas. A mídia que faz papel de palhaça e que trata o telespectador como palhaço dá destaque somente aos palhaços. Enquanto as novelas estão no ar, crianças dormem nas ruas, pessoas morrem de fome, a bala perdida encontra um rumo, o pai mata as filhas, o deputado se esconde, a adolescente se suicida e o mundo afunda. É jornalista que cobriu guerra tentando explicar a importância do BBB, o casal de salafrários roubando em nome de Deus, o rabino furtando gravatas, vândalos destruindo São Paulo por causa da presença de Bush, aeroportos lotados de passageiros frustrados, controladores de vôos desesperados... E o garoto continua no sinal, com o rosto pintado de palhaço, representando uma sociedade perdida, distraída, que não responde a muitas perguntas, principalmente “quem somos e para onde vamos?”.