Por eles choramos e sentimos raiva

O noticiário informava: “Apenas este ano, até o dia 15 de março, 31 policiais militares já foram mortos no Rio de Janeiro”. O jovem se preparava para sair de casa e lamentava o clima de terror da cidade maravilhosa. Pegou o par de tênis e foi para a sala a fim de assistir o restante da reportagem. Um suspiro resumiu o sentimento de impotência diante da situação. Desligou a tv, pegou a chave da motocicleta, despediu-se da avó e foi em direção à casa da namorada.

No meio do caminho ele se depara com uma blitz policial. Do seu lado está uma motociclista com o uniforme da prefeitura, que passa direto. O policial acena somente para ele (os dois estavam sem capacete), pede os documentos da moto e sua carteira de motorista. O rapaz então apresenta o documento da moto, que está devidamente regularizada, retira da carteira o recibo da auto-escola como prova que estava providenciando sua habilitação. O militar explica que o recibo não vale como documento e lhe informa que o valor das multas referentes às irregularidades é de aproximadamente R$ 500,00.

Constrangido, o jovem pega o celular e informa à namorada que vai demorar. Concorda com o fato de ter sua moto retirada por alguém habilitado e fica em silêncio. Neste momento seu irmão (um pouco mais velho e já experiente em blitz policiais) aparece e tenta intermediar, pedindo ao policial que o liberasse das punições. O mesmo parece não ouvir o pedido e pega o bloco de multas. Então o irmão do jovem pergunta ao policial se nada poderia ser feito. Ele olha para o seu superior e diz que até poderia fazer, mas que iria depender da oferta do inexperiente rapaz, que abre a carteira e mostra uma nota de um e outra de cinqüenta reais. O policial disfarça, olha para o lado, coloca o bloco de multas sobre a carteira, pega o dinheiro e ainda se despede alertando o jovem sobre a necessidade do uso do capacete.

O sentimento pelos policiais militares agora era outro. A comoção pela morte de alguns deles já não existia. Ao contrário, passara então a achar merecido que “uma raça dessas perecesse por completa”. A corrupção era clara. E jovem se culpava por ter se beneficiado de um profissional corrupto e que agira sem ética. Chegou então a conclusão de que não valia a pena andar conforme a lei, já que - mesmo não tendo sido o caso dele – os policiais se vendiam por mísero valor que fosse. No telejornal da madrugava era dada a mesma notícia em relação ao número de policiais mortos. A mãe do rapaz diz que pela manhã sentira vontade de chorar pelas mães dos militares. O rapaz se levanta, deseja boa noite e sussurra: “Por eles choramos e por eles sentimos raiva”.