O ônibus parou e de repente dois meninos enrolados em cobertores, descalços e aparentemente sujos entram pela porta de trás. Os passageiros se encolhem, seguram as bolsas e olham para o lado de fora, tentado ignorar o que no momento as perturbam. O motorista olha pelo retrovisor e tenta expulsar os menores, que pedem para não serem incomodados, alegando que querem apenas um carona. Com a negativa dos garotos, o motorista decide parar em um posto policial.
Os policiais entram no ônibus e os menores tentam - sem sucesso - se esquivar das mãos dos militares, que de forma arrogante mandam os garotos correrem. Ao descer, um dos menores olha de forma ameaçadora para o motorista. Os passageiros continuam fingindo que nada acontece e o ônibus segue. Do outro lado do viaduto os menores correm em direção à favela. Os policiais voltam para perto da cabine, que está toda perfurada por tiros. Um passageiro questiona: “Tem que pegar um marginal desse e matar. O que adianta mandar correr se depois ele volta e mata um cidadão de bem?”. Ninguém continuou o assunto dentro do ônibus, mas pareciam refletir sobre o problema.
Mesmo com aparência de bandidos-mirins, aqueles meninos ainda eram crianças. Se há possibilidade de mudança para eles não se sabe. O que se vê é que a sociedade quer fazer justiça (e injustiça) com as próprias mãos. O menino que é morto pela polícia é o mesmo que mata os fardados nos sinais da vida. A população que quer matar, infelizmente acaba morrendo nas mãos dos marginais, que sem piedade alguma estão matando inocentes. A sociedade anseia por melhoras e nada faz para isso, se tornando refém e ao mesmo tempo culpada pela situação. Não adianta esperar ações dos governantes, eles parecem viver em um outro mundo. Temos que cobrar deles e fazer a nossa parte. Fala-se muito da violência urbana, enquanto a praticamos diariamente, quando somos questionados, irritados ou contrariados, seja no trânsito, em casa, no bairro ou até mesmo no trabalho.
Se uma criança que tem acesso à moradia, saúde e educação de qualidade, tiver a sorte de não encontrar uma bala, até então, perdida, poderá crescer e ser alguém na vida. No entanto, o menor que nasceu e está envolvido com o crime, que é ignorado por todos e excluído de tudo, passa a ser visto pela sociedade somente quando desce para o asfalto, onde rouba, mata e faz qualquer coisa para ganhar prestígio entre seus parceiros. A vida deles termina na terra, onde são enterrados não só suas vidas, mas também seus desconhecidos sonhos, aqueles que eles sequer chegaram a sonhar.