Era em uma família rica que vivia um garoto apaixonado pelo canto dos curiós. Um pássaro de peito marrom e que dentre os colecionadores valia alguns cruzados novos. Seu avô, cansado de ouvir o menino imitando o canto do curió, decidiu o presentear com o pássaro, que mesmo dentro da gaiola não parava de cantarolar pelas redondezas, chamando a atenção dos outros criadores daquela raça.
O tempo passou, o menino cresceu e continuava apaixonado pelos curiós. Passava horas e horas debaixo de um cajueiro ouvindo o pássaro cantar. Uma vez ou outra pendurava a gaiola em uma árvore na beira do campo para jogar bola com os amigos. Ficava sempre de olho, com medo de perder seu companheiro. E aquilo que ele tanto temia aconteceu: um chute fez com que a bola derrubasse a gaiola. De longe o garoto via o curió de debatendo na gaiola e ao chegar próximo, observou que o passarinho saía por uma pequena passagem, chegando rápido aos galhos da árvore.
Foram dias e dias de tristeza até o menino entender que independente do bom tratamento, o curió preferia a liberdade. Durante alguns dias chegou a sonhar com destino do seu companheiro. Ficava debaixo do cajueiro a espera do curió. Mas ele não voltou. Foi quando seu pai comprou uma bicicleta para ver se ele se distraía e enfim, esquecesse de sua paixão. Mas ainda assim o menino continuava triste.
O menino cresceu, casou-se e teve filhos. Certo dia ao passar em frente a uma barbearia viu uma gaiola na mão de um idoso. Voltou com o carro e decidiu perguntar ao senhor como ele havia conseguido o pássaro. Após conversarem, percebeu que não se tratava do seu melhor amigo, mesmo assim resolveu comprá-lo. Os anos passaram e o homem já tinha seus cabelos brancos. Até que um dia o curió ficou sozinho, sem entender o motivo pelo qual naquela manhã tão bonita, seu amigo não havia aparecido para tomar sol e bater papo. O curió ainda não sabia que o homem estava vivendo uma nova vida, sentindo o que ele só sentiria se estivesse fora daquela gaiola.