Próximo de completar vinte e dois anos de vida, chego a conclusão que tudo neste país está abandonado, que as pessoas não fazem nada para ajudar ninguém, que os governantes são todos corruptos e que não entram na política para mudar a situação, e sim enriquecerem. Tudo que vejo pelas ruas é ignorância, as pessoas não confiam uma nas outras, tratam o próximo com indiferença e frieza. Os hospitais e escolas estão em decadência, vidas são desperdiçadas, tratadas apenas como números para as pesquisas que revelam a triste situação do Brasil.
Nas escolas públicas crianças semi-analfabetas por todas as séries. Não sabem ler, escrever, falam palavrões, transparecem violência e dificilmente chegam a concluir os estudos. A elite insiste em tacar ovos na cabeça daqueles que eles consideram inferiores. Nos hospitais vemos doentes apodrecerem em cima das macas esperando a boa vontade de profissionais que se sentem donos da vida das pessoas. Tratam os doentes com má vontade, achando que estão fazendo favor à população. Das prefeituras ao Congresso a corrupção é predominante. E o povo continua elegendo esses marginais de terno e gravata, que de quatro em quatro anos pedem o nosso voto.
Chego a esvaziar-me de esperança. O que me faz prosseguir é a certeza que dias melhores virão. Passo a acreditar no impossível, no dia que a massa - hoje bestializada - irá se conscientizar de que é preciso mudar. A sociedade tem sorte de ainda haver pessoas que fazem a diferença, que tentam nadar contra a maré, que não param no meio do caminho parar cobrar soluções para o nosso país melhorar. Nossa imprensa age com sensacionalismo, insiste em ganhar audiência em cima do drama e da tragédia. O foco da mídia está voltado para o capital, para aquilo que gera lucro e poder. O Brasil não se conhece, enganamos a nós mesmos quando forjamos uma alegria no meio de tanta tragédia. Vestimos a fantasia que querem que vistamos, usamos máscaras para esconder as marcas de um povo sofrido e sabatinado.
Quebraram-se as barreiras da ética, deixamos valores para trás, nossa conduta se transformou em uma feira livre. Regras e leis são ignoradas, órgãos até então competentes foram corrompidos. E o pior é saber que tudo isso não é fruto apenas daquilo que a imprensa retrata. Sentimos este cheiro pelas ruas, conversamos sobre isso entre amigos e família. Apesar de desacreditado, não perdi as esperanças, continuo a difícil caminhada, sem nunca me conformar com as mazelas que afligem nossa sociedade. Quem sabe quando eu estiver com o dobro da minha idade, daqui há uns vinte e poucos anos, olhe para trás e sinta orgulho de ter contribuido um pouco com nosso Brasil.