Você deve estar se perguntando qual é o ponto em comum entre esses três fatos. De início eles parecem distintos, mas ao observar a cobertura que receberam da mídia, é possível identificar semelhanças entre os casos. De modo feroz, a opinião pública pressiona a imprensa a cobrir os casos da sua maneira. Por outro lado, esta trata os fatos como espetáculo, tornando os três acontecimentos em um folhetim. A cada dia um novo acontecimento, um novo desdobramento, uma nova declaração.No episódio da menina que foi assassinada em São Paulo, observe que desde o início, tanto a imprensa, quanto o promotor do caso trataram o pai e a madrasta de Isabela não só como únicos suspeitos, mas também como os assassinos da criança. Na televisão fizeram uma espécie de “disk-juiz”. O telespectador poderia ligar e votar se eles consideravam o casal responsável ou não pela atrocidade. E a ligação ainda era paga, tornando a morte da menina em um comércio. Nos jornais, frases como “eles mataram Isabela” acompanhadas de fotos do casal (assustados, chegam a parecer verdadeiros assassinos), faziam um pré-julgamento do caso.
A desculpa da imprensa é que eles apenas reportam o que as autoridades dizem. Concordo. Por vezes a imprensa repete as besteiras que delegados, políticos, pseudo-especialistas e outras fontes que dando informações equivocadas, a levando ao erro. Na teoria, quem comete um crime deve ser preso. E se é tão claro que o casal Nardoni matou Isabela, por que eles não estão presos? Por causa do dinheiro que têm? Ou seria pelo olho do “deus povo” e da “deusa imprensa”? Nem mesmo o tremor de terra tira o foco de um caso como este. “Jornalistas também têm família, precisam vender jornal, dar audiência”, é a desculpa de um colega, justificando a atitude da imprensa.
No meio desse caos, quem poderia estar aqui pedindo a Deus pelo povo brasileiro, decidiu voar. Pendurado em balões de gás, o padre Adelir de Carli partiu mesmo com o céu nublado em Maringá, no Paraná. Sua intenção era bater um recorde e também divulgar projetos sociais. O resultado dessa aventura foi os balões jogados em alto mar e o sacerdote desaparecido. De início a mídia tentou tratar o caso com seriedade, mas quando a opinião pública começou a tratar o caso com deboche, a imprensa logo tratou de divulgar as piadinhas que circulam na Internet. Ninguém está aí para o padre. Agora que o assunto não dá mais audiência, o assunto da vez é o traveco do craque Ronaldo.
Atrás de uma farra estilo fast-food, Ronaldo, o fenômeno, deixou a namorada em casa (?!) e foi para um motel com três travestis. Um deles botou a boca no (calma!) trombone, e no outro dia o ocorrido estava nas capas dos jornais. Teria o jogador transado com os travecos? Ele realmente usou drogas? O jogador foi vítima de extorsão? Mais uma vez a imprensa tentou descobrir a resposta para essas questões. A história, como sempre, se tornou uma piada.
A mídia trata o estranho travesti com deboche. Os 15 minutos de fama da princesa 171 acabou. Do lixo ao luxo e de volta para o lixo em menos de dois dias. Ele (ou ela) pode ser preso. Ronaldo, que viu sua bizarra privacidade ser estampada na imprensa de todo o mundo, manchou, ainda que pouco, sua carreira. Os programas de fofoca conseguiram uns pontinhos a mais em sua insignificante audiência, os jornais zombaram da cara do jogador, Arnaldo Jabour bancou o especialista em travecos, e o povo se diverte com a história em cada esquina. Até a famosa transformista Rogéria deu palpite na história: garantiu que Ronaldo sabia o que estava colocando dentro do carro.
Daqui a pouco é a vez da publicidade aproveitar a onda para vender a sorridente e angelical boneca Isabela, o padre radical (novo integrante do grupo Comandos em Ação) e a inovadora boneca total flex, a Barbie que se transforma em Ken.
Quais as lições que esses três casos deixarão para a sociedade? Enquanto a notícia continuar sendo tratada como espetáculo, o mosquito da dengue continua voando, feliz, pelo Rio de Janeiro, curtindo a beleza da cidade maravilhosa. E a vida continua. Que venham os próximos capítulos!