Nunca é tarde

Um olhar e a promessa: "terei uma filha desse homem". Em menos de um ano a mulher estava dando a luz a uma menina. Casado, o pai foi tomado por uma covardia que o distanciou da filha, que depois de algum tempo foi criada pela avó. O homem perdia as primeiras palavras, os primeiros dentes, passos e brincadeiras de sua filha. Depois veio a adolescência, a juventude, o ingresso na universidade... Na verdade, pai e filha perderam os sorrisos, abraços, carinhos, risadas, choros, conselhos etc.

Certo dia a menina - então mulher - estava em uma cidade vizinha e garantiu para uma amiga que acompanhava: “aquele homem do outro lado da rua é o meu pai”. A colega duvidou. Afinal, como a menina tinha tanta certeza que um desconhecido era quem ela jamais tinha visto antes? A menina estava certa. Não era uma simples aposta. Pai e filha estavam separados por poucos metros de asfalto.

Agora, o sonho nublado ganhou um rosto. O que era imaginário fora personalizado pela figura daquele homem. A menina sabia que seu pai estava por perto. Não só ele, como também uma família inteira. Irmãos, sobrinhos, cunhadas, tios e outros parentes moravam a poucos quilômetros de sua casa. Por isso mesmo sua mãe a alertava para um risco iminente: um possível romance com algum de seus irmãos. Pelos nomes, a menina sabia com quem não poderia, sequer, estender uma conversa mais audaciosa.

Sua vida jamais parou por causa do pai (ou pelo menos da ausência dele). Os planos começaram a ser colocados em prática, os sonhos foram se realizando e as expectativas pelo futuro acontecendo naturalmente. Apesar do caminho já percorrido, dificuldades e medos atrapalhavam a menina em algumas circunstancias. Faltava algo para completar aquela história.

Para a surpresa da menina, uma cunhada de seu pai deixou-lhe um recado pela Internet. Logo, ela conversava virtualmente com um dos irmãos. A expectativa era grande. Os pontos em comum e as experiências eram compartilhados. Mas havia algo a ser feito: um encontro entre pai e filha. Noites de ansiedade anteciparam o momento. A avó, que dedicou sua vida à neta, tomou-se de ciúmes. Nada que a menina não compreendesse e respeitasse.

Por telefone, pai e filha se falaram pela primeira vez. Apesar de felizes, estavam cautelosos, com medo do desconhecido. Decidiram marcar um encontro. Ao se olharem, ambos esboçaram surpresa e timidez. Os pensamentos transcendiam o tempo. Explicações foram rejeitadas, o que importava mesmo era aquele momento. À frente do pai estava uma menina bem-criada, repleta de opiniões, vontades e decisões. Em meio à alegria, uma única certeza: não havia relevância no passado; o importante mesmo era o futuro, aquilo que, de agora em diante, pai e filha viveriam juntos.