Louco pela vida

17 de setembro de 1999. Seu Antônio completava 69 anos de vida - vinte deles no sanatório “Lar doce Lar”. Era um dia de visitas, mas, como sempre, quase ninguém apareceu. Apenas alguns estudantes que sempre faziam ação social no local. Como já sabiam da data, decidiram fazer uma festinha para o velho Toinho, como era conhecido pelos amigos.

Os jovens chegaram ao “Lar” e prepararam uma festa daquelas: bolo, guaraná, docinho, salgadinho e outras bobeiras que arrancavam sorrisos de Toinho. Antes de ir para o sanatório, ele trabalhou desde jovem como motorista de ônibus. “Já ouvi muitas histórias, já vi muitas coisas inacreditáveis, por isso que eu fiquei louco”, sussurrava ele no ouvido de uma moça, que fraternalmente lhe abraçou.

Na hora de dar o primeiro pedaço de bolo brincou: “ofereço esse pedaço para a minha irmã, aquele mulher de bom coração que me mandou para cá”, falou em tom de deboche. Preferiu não escolher ninguém, e dedicou sua festa a todos os amigos presentes e também aos que já haviam ido embora (para casa ou para o “lar mais doce do que o Lar doce Lar”, como ele apelidava o céu).
Depois da festa Toinho chamou os jovens no refeitório e fez uma revelação. “Tenho um tesouro escondido dentro do meu colchão. Caso um dia eu parta, venham aqui e peguem o que é de vocês. Fiquem tranqüilos, deixarei um testamento”, prometeu. Fingindo acreditar, os jovens agradeceram e deram um abraço naquele alegre homem de barba branca, boné, e com seu inseparável apito amarelo na boca.

Dez anos se passaram e a vida separou aqueles jovens. Haviam concluído o curso e alguns já não moravam mais na cidade. Um deles, no entanto, trabalhava no “Lar”. Em uma tarde bonita, comendo bolinho de chuva, Toinho fechava os olhos para nunca mais abrir. Depois de 30 anos no sanatório, o velho deixava a instituição saudosa de suas histórias. O jovem, lembrando-se da promessa do velho amigo, resolveu ir até o quarto para ver se existia mesmo algum tesouro por lá.

Ao virar o colchão, percebeu uma tampa de madeira com uma tramela. Havia uma frase talhada a mão. “Deixo toda minha fortuna para a minha maior riqueza: meus amigos”. O jovem sorriu e chorou. Abriu com cuidado o artesanato do amigo e encontrou um papel de pão com algumas palavras escritas. Toinho deixara explícita a saudade que sentia dos amigos e a admiração que tinha por cada um deles. O jovem pegou a caixinha dentro do colchão e decidiu não abri-la. Ligou para os amigos e marcou um encontro.

Chegou o momento. Ao abrirem a caixa descobriram que Toinho passara seus trinta anos de “Lar” em um riacho que passava nos fundos do local. Lá, catava tudo que considerava valoroso. Moedas antigas, cordões, pedras e outros objetos que desciam pela água. Somente após a morte do amigo, os jovens descobriram a fórmula que Toinho tinha para viver feliz em sua louca realidade.