Sempre resta algo

O telefone toca e a notícia: a mãe de uma amiga faleceu. Continuei a caminhada até em casa pensando em como estaria aquela menina de aparência frágil, sorriso sincero e ombro amigo, que acabara de perder quem mais amava na vida. Na fria manhã do dia seguinte levantei-me e fui à cidade onde seria o velório. No ônibus, os pensamentos se embaraçavam com os retalhos de lembranças que tinha e ficava pensando no que dizer e em que atitude tomar quando encontrasse com minha amiga.

Cheguei à Igreja, balancei a cabeça para alguns conhecidos. Procurei por ela até que a avistei de longe, com um casaco de lã, abraçada a algumas pessoas. Controlei os passos, falei com os amigos, que juntos tentavam se consolar, olhei para ela e sem saber o que falar a abracei com força. A sensação era das piores possíveis... Lembro-me dos olhos perdidos, das lágrimas que escorriam junto a um leve gemido de dor. Até ali eu me segurava, queria passar força para ela, que estava visivelmente abatida.

Fomos para o sol nos aquecer e começamos a conversar sobre o que havia acontecido no dia anterior, quando sua mãe passou mal. Tentávamos juntos buscar uma explicação, mas era tarde. A cabeça girava, ficava imaginando como seria dali para frente. Avaliava-me como amigo, cobrava de mim mesmo mais atenção, cuidado, tempo e palavras que pudessem acabar com aquela dor. Demorei a perceber que qualquer coisa que fizesse seria em vão. Antes do enterro alguns hinos foram cantados. Nada suficiente para cessar a dor que sentíamos. O pastor falou sobre a missão, o tempo que Deus estabeleceu para as coisas acontecerem em nossas vidas. Ainda assim achávamos que ainda era tempo dela estar conosco.

Terminava o culto, os filhos se aproximavam do caixão para uma despedida. Fui para o primeiro banco da igreja e desabei, olhava para frente e chorava. A fortaleza se rompia naquele momento. No cemitério, com um pedaço de tijolo, ela escrevia uma mensagem de amor para a mãe. Dentro de mim, vários sentimentos. Não havia palavras que pudessem expressar tanta tristeza. A vida continuou, ainda que de forma diferente, as coisas prosseguiram, e dessa história toda o que restou foi amizade, que na verdade, um dia irá se resumir em lembranças.