Culpado ou inocente?

O principal assunto na cidade de Guapimirim, interior do Rio, é sobre a morte de R., um menino de 14 anos e que já estava desaparecido há alguns dias. Eu o conhecia há algum tempo. Era um garoto engraçado (chegando a ser chato de vez em quando) que inventava histórias que faziam dele “o cara” perante os colegas. Segundo ele mesmo relatou, fumou maconha desde muito novo. Morava com sua mãe e falava que o pai era um bandido. Achava que estar “doidão” era vantagem e mesmo quando estava fora dos efeitos das drogas falava delas como algo admirável.

Sempre que eu podia conversava com ele e com outros meninos do bairro. Os orientava sobre drogas, namoro, sexo, trabalho, dinheiro e alguns assuntos pertinentes às ocasiões. Na última conversa que tivemos, constatei que ele estava seguindo um caminho perigoso. Ele narrava o dia em que fora a um baile funk em uma favela e que em meio a um tiroteio, achou que fosse morrer. Usei sua própria história como exemplo de uma vida que estava sendo desperdiçada. Falei sobre alguns colegas que já haviam morrido em conseqüência das drogas e sobre aqueles que deram a volta por cima, conseguindo mudar o destino que era previsto para eles.

Guapimirim é conhecida por suas belezas naturais e foi emancipada há pouco mais de 16 anos. Cheia de cartões-postais, a pequena cidade de aproximadamente 40 mil habitantes aparenta uma falsa tranqüilidade. Furtos e homicídios acontecem de vez em quando, falta educação, saúde, lazer, cultura, emprego e moradia (também temos mendigos e pessoas morando debaixo do viaduto). Para os jovens, resta a ociosidade. A falta do que fazer é o principal fator que tem levado tantos deles para as drogas e, consequentemente, para o crime. R. foi mais um dos muitos meninos que um dia nasceram sem saber que perderiam suas vidas de maneira tão banal.

A corda que o enforcou se transforma em um nó de indignação em minha garganta.
É decepcionante ver o dinheiro público ser usufruído de forma indevida. Alguns políticos simplesmente enriqueceram durante poucos anos que estiveram no poder. A ganância e a cara-de-pau desses safados (desculpem o chulo vocabulário) impedem o desenvolvimento de Guapimirim. O atual governo até melhorou (e muito) a “cara” da cidade. Mas é como maquiar uma fruta podre. Ainda que haja beleza, seu interior jamais produzirá boas sementes. São necessárias atitudes que busquem transformar a vida e o destino de meninos como R.. É preciso criar oportunidades na cidade, melhorando a qualidade de vida da população.

O pior é saber que não foi o primeiro e nem será o último garoto a ter sua vida destruída pelas drogas (o que me causa grande angústia). Diante desse quadro, ainda há aqueles que, revestidos de frieza, julgam e condenam esses meninos como culpados de suas próprias histórias, considerando-os algozes de seus destinos. Não estou aqui para inocentar R.. Primeiro porque não cabe a mim tal julgamento, segundo porque não mudaria em nada a sua história. Prefiro acreditar que esse apedrejamento feito pela sociedade é apenas uma forma de se defender perante sua omissão. É nesta sociedade que vivemos... As “páginas da vida” da ficção são mais importantes do que a triste realidade que, muitas vezes, está dentro de nossas próprias casas.